GE 06 · GP 01 Abril · 2025
Pensamento, juízo e linguagem
Do fluxo do pensamento ao delírio
Paulo Dalgalarrondo · Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais
Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais
Paulo Dalgalarrondo · Artmed, 3ª ed. 2019 · Parte II — Funções psíquicas
Capítulos 20, 21 e 22 — O pensamento e suas alterações · O juízo de realidade e o …Ana Paula abriu a apresentação com uma pergunta que desestabilizou o grupo de forma produtiva: o que é pensar? A partir daí, Dalgalarrondo desdobra as alterações formais do pensamento — aceleração, retardo, perseveração, pensamento mágico — distinguindo-as das alterações de conteúdo. O grupo debateu como essa distinção orienta a escuta: a forma do pensamento já informa sobre o substrato clínico antes mesmo de o conteúdo ser analisado.
O capítulo sobre o delírio foi o mais rico e o mais tenso do encontro. Dalgalarrondo situa o delírio não como crença errada, mas como alteração primária do juízo de realidade — com certeza absoluta, autorreferência e impermeabilidade à argumentação. O grupo discutiu a implicação clínica mais difícil: como construir aliança com quem vive num mundo radicalmente diferente? Daniel trouxe Jaspers para o debate — o delírio como experiência irredutível, não como erro lógico.
A linguagem fechou o encontro com reflexões sobre afasia, logorreia, ecolalia e neologismos. Felipe compartilhou um caso de paciente que criava palavras para experiências sem nome — e o grupo debateu a fronteira entre criatividade e desorganização. Gabriela propôs que o neologismo psicótico e o neologismo poético são estruturalmente análogos — o que os diferencia é o contexto e a função, não a forma.
A distinção entre forma e conteúdo do pensamento transformou minha escuta avaliativa. Antes eu ia direto ao conteúdo — agora presto atenção na estrutura antes de interpretar o que está sendo dito.
Apresentar esses capítulos foi um presente para mim. A questão 'o que é pensar?' ficará na minha cabeça por muito tempo — e na minha escuta clínica.
O delírio como experiência irredutível — não como erro — muda a postura clínica inteiramente. Trabalho com psicose e ainda me pego querendo 'corrigir'. O encontro me lembrou que isso não funciona.
Trazer Jaspers foi uma escolha que o grupo abraçou. Dalgalarrondo e Jaspers se complementam — o primeiro descreve, o segundo nos convida a compreender o que está além da descrição.
A analogia entre neologismo psicótico e poético gerou desconforto — e acho que deveria mesmo. A fronteira entre criação e desorganização é clínica, não linguística. Isso exige humildade do avaliador.
Resenha escrita por
Camila Ferreira
QPsi · GP 01 · GE 06 — Abril · 2025
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