GE 05 · GP 01 Março · 2025
Memória, afetividade e vontade
Funções psíquicas e suas alterações — parte 2
Paulo Dalgalarrondo · Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais
Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais
Paulo Dalgalarrondo · Artmed, 3ª ed. 2019 · Parte II — Funções psíquicas
Capítulos 17, 18 e 19 — A memória e suas alterações · A afetividade · A vontade, a…Gabriela apresentou os capítulos com uma entrada incomum: começou pela memória não como função cognitiva, mas como condição de identidade. Quem somos é, em grande parte, o que lembramos — e quando a memória falha, algo da identidade também vacila. O grupo debateu as amnésias dissociativas: quando a memória não está perdida, mas inacessível. Ana Paula trouxe a perspectiva psicanalítica — o recalque como forma de amnésia motivada — e o grupo discutiu as sobreposições e diferenças entre o conceito psicanalítico e o semiológico.
O capítulo sobre afetividade foi o mais comentado. Dalgalarrondo organiza o campo com precisão rara: humor, afeto, sentimentos, emoções — cada um com definição precisa e implicações clínicas distintas. A discussão se concentrou na alexitimia: pacientes que não nomeiam o que sentem. Tamires compartilhou que em avaliação psicológica esse é um dos achados mais frequentes e mais subvalorizados — e que a semiologia da afetividade é essencial para identificá-la.
A vontade e a psicomotricidade fecharam o encontro com reflexões sobre abulia, impulsividade e compulsão. O grupo relacionou esses conceitos com demandas clínicas frequentes: procrastinação severa, dificuldade de iniciar, comportamentos repetitivos. Elisa trouxe um caso clínico de paciente que descrevia 'não conseguir fazer nada' — e o grupo discutiu como distinguir abulia de depressão de preguiça de sabotagem, e o quanto essa distinção muda a abordagem clínica.
A alexitimia em avaliação psicológica é mais comum do que se supõe — e muitas vezes passa despercebida porque o paciente parece 'cooperativo'. O capítulo me deu ferramentas para ser mais precisa na identificação.
A relação entre recalque e amnésia dissociativa foi o ponto que mais me mobilizou. São conceitos vizinhos com genealogias muito diferentes — e aproximá-los exige cuidado epistemológico real.
Apresentar a memória como condição de identidade foi uma escolha que veio da psicologia analítica — e que o grupo recebeu bem. Fico feliz quando os referenciais se iluminam mutuamente.
O caso clínico que trouxe foi difícil de compartilhar — mas o grupo criou o espaço certo. A discussão sobre abulia versus depressão versus 'preguiça' vai mudar como formulo esses casos.
A psicomotricidade como linguagem do que a fala não alcança — isso ressoa muito com populações que atendo. Muitos pacientes falam pelo corpo antes de conseguir falar com palavras.
Resenha escrita por
Ana Paula Rezende
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