GE 10 · GP 01 Outubro · 2025
Substâncias, sono, sexualidade e cultura
Síndromes especiais e interfaces da psicopatologia
Paulo Dalgalarrondo · Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais
Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais
Paulo Dalgalarrondo · Artmed, 3ª ed. 2019 · Parte III — As grandes síndromes psicopatológicas
Capítulos 35, 36, 37 e 40 — Transtornos por substâncias · Síndromes do sono · Sexualid…Camila apresentou os capítulos chamando-os de 'as interfaces' — áreas onde a psicopatologia se cruza com cultura, biologia e contexto social de forma especialmente evidente. Os transtornos por substâncias abriram com a distinção uso–abuso–dependência, e o grupo refletiu sobre como a moralização contamina o olhar clínico. Felipe trouxe a perspectiva da saúde coletiva: o uso de substâncias como resposta adaptativa a condições de vida — e o quanto a clínica individual frequentemente ignora esse contexto.
As síndromes do sono surpreenderam o grupo pela profundidade com que Dalgalarrondo trata o tema. Sono e psicopatologia se entrelaçam: insônia como sintoma e como fator de manutenção, hipersonia, parassonias. Tamires revelou que raramente avalia o sono com profundidade nas entrevistas iniciais — e o grupo, em geral, reconheceu o mesmo. A discussão produziu um compromisso coletivo: incluir avaliação sistemática do sono em todos os casos.
O capítulo sobre síndromes relacionadas à cultura encerrou o GP 01 de forma provocadora. O ataque de nervos, o koro, o susto — síndromes que o DSM não captura — desafiam a pretensão universalista da psicopatologia ocidental. O grupo debateu: existe psicopatologia transcultural? Ou toda psicopatologia é, em alguma medida, uma construção cultural — inclusive a nossa? O encontro terminou sem resposta — e com a certeza de que essa é a pergunta certa para fechar um ciclo.
Fechar o GP 01 com essa pergunta — existe psicopatologia transcultural? — foi a escolha certa. Terminamos com mais humildade do que começamos. E isso, para mim, é o maior sinal de que valeu a pena.
Apresentar o último encontro foi uma honra e uma responsabilidade. Escolhi os capítulos das interfaces porque queria que saíssemos do livro com perguntas — não com respostas. Parece que funcionou.
O uso de substâncias como resposta adaptativa — e não apenas como patologia — é uma lente que a saúde coletiva oferece e que a clínica individual precisa aprender. O GP 01 foi um espaço para isso acontecer.
Dez encontros depois, minha relação com o diagnóstico mudou. Antes eu o via como destino; agora o vejo como mapa provisório. O mapa não é o território — mas ter um bom mapa importa.
Propus que o GP 02 seja com um livro de psicopatologia fenomenológica — talvez Tatossian ou Binswanger. Dalgalarrondo abriu portas que quero continuar atravessando, com esse grupo.
Resenha escrita por
Felipe Nascimento
QPsi · GP 01 · GE 10 — Outubro · 2025
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